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Sociedade

Encontro de narrativas

Renato Silva

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No último fim de semana, dos dias 18, 19 e 20 de outubro, a cidade do Rio de Janeiro recebeu, na Fundição Progresso, a segunda edição do Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente – uma iniciativa brasileira que tem a premissa de fomentar as discussões sobre o momento de reinvenção que o meio digital tem imposto ao jornalismo, e como falar em jornalismo independente, inovador e inspirador, sem contemplar o trabalho de jornalistas negros, pobres e moradores das favelas e periferias Brasileiras que constroem a primeira geração de universitários em suas famílias?

Com base nessa reflexão e considerando que a produção jornalística ao longo dos anos esteve restrita à classes mais privilegiadas do Brasil, a equipe de organização do evento encontrou caminhos para conceder subsídios que pudessem garantir certa diversidade no evento e foi a criação da categoria de “patronos” do festival que permitiu a participação de 70 jornalistas e comunicadores oriundos de diferentes favelas e periferias do país. 

O integrante do conselho curador do festival e representante do projeto #Colabora, Agostinho Vieira, esclarece como foi o processo que conseguiu viabilizar entradas gratuitas para estes profissionais: “desde o início discutimos a necessidade de ter um pacote de ingressos para os jornalistas da periferia. A questão era como fazer isso sem afetar o orçamento do festival que já estava bem apertado. Por isso buscamos os “patronos” que apareceram na divulgação do evento. Os patronos foram a Coca-Cola Brasil, a Open Society e o ICS (Instituto Clima e Sociedade). Eles basicamente compraram os 70 ingressos que foram oferecidos para os jornalistas”.

Os desafios para viabilizar de forma igualitária a participação de jornalistas periféricos, que não teriam chance de pagar o valor de R$ 320,00 no ingresso para participar de 3 dias de festival continuavam, e foi necessário decidir um critério para a distribuir os ingressos. “Fazer parte de um coletivo de comunicação, por exemplo, foi uma das ideias. No final resolvemos abrir as inscrições no site do festival para quem quisesse se candidatar. Todos poderiam se inscrever. Achamos que apareceriam 200 ou 300 e teríamos que voltar a debater os critérios. Mas isso não foi necessário. Tivemos 75 inscrições para 70 ingressos”, finaliza Agostinho Vieira.

Desde a primeira edição em 2017, com 20 ingressos subvencionados, a equipe organizadora vem demonstrando o interesse em proporcionar um ambiente de inclusão no evento. Ainda que o conselho tenha conseguido através dos patronos e curadoria para incluir iniciativas ao espaço Google, a secretaria-executiva do Festival 3i, Natalia Viana, relata que outras preocupações ainda permeiam o tema para as próximas edições. “Infelizmente não conseguimos viabilizar o apoio logístico desta vez, embora tenhamos tentado, algo que buscaremos para o próximo festival”, acrescente Natalia, mostrando a disposição do conselho em seguir ampliando possibilidades de inclusão.

Os coletivos, jornalistas e veículos de comunicação que surgem no contexto de favelas e periferias do Brasil, desenvolvem-se a partir do ambiente digital. O celular, torna-se a principal ferramenta de produção jornalística porque é o equipamento acessível para essa geração que se forja e encontra, na internet, o espaço de criação e emancipação que, até hoje, não existe nas redações tradicionais. Só que criar saídas é a especialidade desse time e articulação é rotina. Talvez você não consiga imaginar perfeitamente como um profissional pode não ter dinheiro para locomoção e alimentação no centro de uma grande cidade que é o Rio de Janeiro. Mesmo com os ingressos em mãos, muitos desses profissionais não poderiam vivenciar a experiência de compartilhamento e aprendizado que espaços como este proporcionam e aí surge a ideia de realizar uma vaquinha online.

O engajamento através das redes sociais foi importante para o reforço no orçamento do grupo de jornalistas favelados.

Pelo menos 14 jornalistas, além da gratuidade de ingresso, precisavam de apoio financeiro para deslocamento e alimentação durante os 3 dias do festival. “Eu percebi que muitos estavam animados com a possibilidade viver essa experiência, mas ao mesmo tempo, preocupados com a falta de dinheiro para chegar até lá. Parecia inviável, mas já tínhamos conseguido a parte mais difícil. Decidi pedir ajuda em grupos de whatsApp e montei uma thread no Twitter, em algumas horas nós conseguimos reunir o dinheiro necessário”. Conta Daiene Mendes, jornalista e co-criadora do Favela em Pauta.

Um grupo de 16 pessoas, que acompanham e acreditam nos trabalhos desempenhados por todas essas figuras, doaram o que puderam, chegando à cifra de R$ 1.670,00, que possibilitou que o grupo dos 14 jornalistas e comunicadores periféricos pudessem, além de acessar o espaço, também custear transporte e parte da alimentação durante esses dias. No Rio, foi através desses profissionais que a #RedaçãoFavela foi usada para realizar a cobertura colaborativa do Festival 3i. Através de suas próprias redes sociais, os jornalistas compartilharam suas percepções e aprendizados e o @FavelaEmPauta compartilhava em todos os canais de mídia unificando o discurso.

Pedro Borges, do Alma Preta, ilustra a representatividade no Festival 3i, onde apenas 7 palestrantes, de um total de 42, eram não brancos.

Um dos infelizes fatores que ilustram bem o cenário desigual do jornalismo brasileiro é a gritante ausência de negros nas redações. O palestrante Pedro Borges, do Alma Preta, trouxe em sua fala alguns dados que expõem muito bem essa realidade, segundo o levantamento, as redações dos jornais O Globo, Folha de São Paulo e Estadão tem respectivamente 9%, 4% e 1% de profissionais negros em suas equipes. Contrastando a representação com dados do levantamento étnico da população brasileira realizado pelo IBGE em 2016, onde consta que 54,9% da população brasileira se considera não branca (46,7% se consideram pardos e 8,2% se reconhecem pretos), fica evidente a precisão dos argumentos do palestrante. E o jornalista acrescenta dizendo que “as redações brasileiras ainda são majoritariamente brancas e masculinas, mas não basta ser negro, é preciso construir espaços antirracistas”, e se o tema é jornalismo inovador, com foco em nativos digitais e novos meios, Pedro ainda vai mais fundo ao alertar sobre o tema, “o jornalismo independente não pode reproduzir a mesma lógica que a grande imprensa. Não existe a possibilidade de se construir democracia no Brasil sem diversidade”, ele afirma finalizando sua fala e também a série de palestras e workshops que durou um fim de semana inteiro na região boêmia da cidade do Rio. 

Esse evento, as palestras e demais momentos, envolveram boa parte dos veículos hegemônicos e o contato com alguns desses profissionais produziu discordâncias pontuais e aprendizados mútuos. “Eu fiquei muito grata pela oportunidade. Não teria como ir por meios próprios. O ponto mais alto do evento foi olhar pro lado e ter mais pessoas do meu bonde junto comigo, do contrário não faria sentido aquele conteúdo. Muito do que foi passado não se aplica à nossa realidade. Ver Raull e Pedro no palco e a galera do espaço Google lavou minha alma. Eram os nossos ali. Me senti contemplada e penso que, se é pra falar de inovação eles tem que chamar a gente. Jornalista com 40 anos de carreira tem experiência, mas isso não necessariamente quer dizer que ele é inovador. Inovador é o que a gente faz, sem recurso, sem ferramenta, muitas vezes sem formação e fica tão profissional quanto”, acrescenta a participante Michele Silva, que é co-criadora do Fala Roça, da favela da Rocinha. 

Raull Santiago, empreendedor social e ativista, integrante do Coletivo Papo Reto e Movimentos em sua fala no último dia de festival.

As discordâncias foram absorvidas e terminaram por potencializar ainda mais a fala de um dos palestrantes do último dia de evento. Raull Santiago trouxe tanta representatividade e força para a sua fala, mostrando o tamanho do equívoco de outros profissionais de veículos consolidados, que costumam taxar profissionais periféricos como ativistas, ou até mesmo como fontes de informação. Sobre isso, Raull diz que “ainda nos veem como fonte, não como produtores de conteúdo. Nós, jornalistas periféricos, sabemos fazer, mas não somos valorizados como trabalho de ponta. Querem transformar o jornalismo? Se conectem com essas pessoas (jornalistas favelados e periféricos presentes no momento que, a pedido do palestrante, se encontravam de pé sob os olhares de todos)”.

O Festival 3i aconteceu através da parceria dos veículos nativos digitais Agência Lupa, Agência Pública, JOTA, Nexo, Nova Escola, Ponte Jornalismo e Repórter Brasil, em 2017, contando ainda com ((o)) eco, Congresso em Foco, ÉNois, Marco Zero Conteúdo, Poder360 e Projeto #Colabora, que chegam para integrar o conselho curador do festival, que em 2019 teve a parceria de Google News Lab e Facebook Journalism Initiative.

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