Favelas interligadas: uma voz contra desigualdades através das redes sociais

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Os dedos deslizam rápido na tela do celular. A inscrição “220v” tatuada no polegar esquerdo anuncia uma das características de Raull Santiago: ele não para. Acelerado, o morador do Complexo de Favelas do Alemão, localizado na zona norte do Rio de Janeiro, de 27 anos, construiu a partir da internet uma forma de lutar contra as injustiças e desigualdades que sempre conviveu. “Na favela, ainda quando criança, a gente se torna adulto rápido e vai aprendendo a sobreviver no cenário de conflito”.

Junto com outros amigos, Raull fundou em 2014 o Coletivo Papo Reto. O grupo mantém uma rede de troca de informações entre os moradores da comunidade 24 horas por dia, através do aplicativo WhatsApp, e usa as outras redes sociais para visibilizar os problemas sociais das mais de 13 comunidades que compõem o conjunto de favelas do Alemão. É também a partir desse espaço que surgem as principais demandas de violações de direitos humanos. “MORADOR ASSASSINADO!” – diz a manchete de um dos posts na página do facebook do coletivo. O caminho de investigação e responsabilização deveria acontecer na regra, mas favela é território de exceção.

“A internet e o celular são fundamentais no trabalho que eu faço hoje, representa o elo que permite a mobilização offline, além da rede. A principal ferramenta de mudança continua sendo as pessoas. A gente usa a internet, a rede, mas o objetivo mesmo é promover as mudanças na vida real.” Raull participa de mais de 45 grupos no WhatsApp, mas comenta sobre o medo de transformarem a tecnologia em um novo instrumento de exclusão social. “Nem todo mundo está online, isso é ilusão. O filho do rico está desde a escola, aprendendo como funciona o algoritmo, robótica e metadados, mas o filho do pobre ainda está lutando para aprender a ler e a escrever”.

Raull Santiago durante rolé no Complexo da Penha. (Foto: Página Vila Cruzeiro – RJ)

As escolas são os lugares mais afetados pela violência. No período de junho de 2016 a junho de 2017, o aplicativo “Fogo Cruzado”, da Anistia Internacional, registrou 218 dias de tiroteio no Complexo do Alemão. A socióloga e coordenadora do Centro de Estudos de Cidadania na Universidade Candido Mendes (CESeC), Julita Lemgruber comenta que a visibilidade é uma das principais ferramentas para a transformação de uma realidade. “As favelas foram, historicamente, invisibilizadas.

As redes sociais proporcionam espaço para muitas vozes antes silenciadas por conta das desigualdades e da criminalização da pobreza. Ganhando espaço e força, essas vozes gritam hoje e esse grito é fundamental para que políticas públicas contemplem as favelas e seus moradores para que, de fato, se promovam as mudanças necessárias.”

“A favela é uma grande rede, olhando de cima é como um coração. Suas artérias e veias são os estreitos becos e vielas e o que dá a vida, oxigenando esse corpo, é o movimento dos mais de 150 mil moradores. A violência na favela é um vírus que paralisa esse movimento, e um corpo sem oxigenação, morre. O meu trabalho é lutar para impedir que esse vírus domine a favela” – finaliza Raull Santiago.