Fernando Ermiro: “Um século de favela — o que pensamos (internamente) sobre isso?”

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Uma das características de nossa sociedade é ser reativa, consequentemente não propositiva e que para funcionar tem a necessidade de um inimigo comum para poder se mobilizar: inimigos imaginários, os “argentinos”; inimigos intangíveis, os “pobres” ou os inimigos pseudo violentos e ainda mais abstratos, a favela e periferia.

As favelas são microcosmos espelhados do Brasil e do Rio de Janeiro: contradições; grupos; hierarquias e muitas disputas internas. Penso que a última vez as favelas se juntaram foi nos anos 60 e 70, quando havia uma politica pública de remoção, clara e orientada. Após isso, nos anos de redemocratização fomos, cada favela, para um lado e nos mantivemos iguais em desenvolvimento, ou seja, embora paguemos pesados impostos, (são dados do IPEA e não raro esses impostos oscilem entre 30% e 40% para um salário mínimo de R$ 900,00), seguimos zerados em saneamento (saneamento inclui moradia digna, e serviços de eletricidade e abastecimento de água constantes) e investimentos do governo.

O nosso primeiro século como favela deixou bastante claro o que não funcionava — no caso, viver à parte na cidade, como os moradores das vilas medievais. As frequentes violações dos direitos humanos mais elementares torna impossível que uma sociedade de favela sobreviva a esse processo no longo prazo, seja pela mortalidade elevadíssima, seja pela transformação dos moradores em mão de obra desqualificada e mal remunerada.

Falta-nos estratégia, e devido a dura escolha entre educação de qualidade (libertadora, crítica e capaz de formular de soluções para questões sociais) ou mercado de trabalho mantemos um ciclo vicioso de 100 anos.

Mais uma vez cito os judeus, assim como nós estamos numa guerra, eles estiveram também e com suas famílias empobrecidas pelo estado, eles buscaram como solução a seguinte estratégia: os responsáveis pela família observavam entre os filhos aquele com características que melhor pudesse dar resultado na escola, trocando em miúdos o mais inteligente naquele modelo ia para escola enquanto os demais iam trabalhar para o sustento da família e aquele que estudava tinha a obrigação de se formar, voltar e ajudar a família. Funcionou e uma sociedade foi transformada.

Passado um século, temos a necessidade de chegar a um acordo entre nós, os diferentes e os divergentes da favela, e chegar a um acerto, um termo, um tratado de paz entre iguais que reconheça erros por falta de estratégias de grupo por nossa parte, e reconhecer que precisamos de um planejamento de futuro.