Gizele Martins: “Parece que as nossas vidas não valem nada”

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Acordei às 6h da manhã. Não sabia que barulho era, ainda tonta percebi que eram tiros, gritos, tiros e mais gritos. Pensei: É briga de facção ou operação? Dez minutos depois soube que era o BOPE, Core, polícia, caveirão, tiros, mais tiros, mais gritos e gritos. Gritos de todos os lados.

As crianças já estavam se arrumando para irem à escola. Logo, recebemos a notícia de que as escolas não abririam. Os postos de saúde também não. Era cedo ainda quando no celular a gente via pessoas de diversos becos e vielas da Maré relatavam que tinha tiro. “Tiro no Timbau”; “Tiro na Baixa”; “Tiro na praça do 18”; “Tiro no Pinheiro”; “Tiro no Palace”; “Tiro na Vila”; Tiros, tiros, tiros e não eram só as notícias de tiros.

Eu também relatava os tiros na área que moro. Eu também dizia “Tiros aqui”. Notícias de casas invadidas também foram relatadas durante todo o dia. Carros metralhados. Eu ainda estava com a esperança dos tiros acabarem por volta do meio dia. Estava já indo me arrumar para tentar ir ao trabalho. Mas, na rua os tiros continuavam, caveirão circulava por toda a parte da favela.

Mais tiros, tudo continuava fechado. Mais caveirões. O pior de tudo era o silêncio do nosso cotidiano sendo abafado pelos barulhos de tiros. Um pouco mais tarde veio a notícia de uma criança baleada, depois, outro jovem baleado. Daí, vi fotos, mais um corpo no chão. Sangue de favelado, sangue de criança e jovem assassinado.

Operação da Polícia Civil na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio. (Foto: Betinho Casas Novas)

Em seguida, protestos nas vias expressas. Os jornais logo noticiam apagando todo o terrorismo e colocando como manchete as pistas fechadas, justificando o terrorismo de Estado e as dos nossos no nosso chão. Aqui e pelas outras redes, vi as pessoas que estavam comentando sobre as mais variadas notícias do país e da cidade logo se desesperarem porque as pistas estavam fechadas.

Já eram 16h da tarde. Eu pensei: “Poxa, só agora as pessoas viram que está dando tiro aqui… mas a preocupação é com o trânsito, mas cara, e os tiros desdes às 6h?”. Depois das pistas fechadas, mais tiros, granadas, bombas de gás. Mais terrorismo, mais massacre, mais tiros nas mais variadas favelas da Maré. Enfim, são quase 20h da noite e eu só queria relatar mesmo o choro, a dor, o desespero que é viver ou sobreviver num lugar como este. Todo este relato será sempre invisibilizado, apagado, censurado, abafado.

Parece que as nossas vidas não valem nada, pois o outro lado da cidade só vai saber do que acontece aqui quando a vida deles é atingida por uma revolta quando os nossos aqui estão perdendo a vida. Não aguento mais essa realidade que nos sufoca. Chega de enterrar os nossos.

Chega de tiros. Eu quero o quero o barulho cotidiano da favela, um barulho que hoje durante o dia inteiro eu não ouvi porque ele foi abafado pelos gritos e tiros de um Estado racista que nos mata.

*Relato publicado originalmente na página Caveirão Não – Favelas pela Vida e contra as Operações