O que aconteceria se Wilson Witzel atirasse mísseis em favelas cariocas

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O governador Wilson Witzel fez um comentário considerado irresponsável por parte de moradores de favelas durante o anúncio da expansão do projeto “Segurança Presente” para o município de Nova Iguaçu e Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro. “A nossa polícia militar não quer matar. Mas nós não podemos permitir cenas como aquelas que nós vimos, lá na Cidade de Deus, que se fosse com a autorização da ONU em outros lugares do mundo, nós tínhamos autorização para mandar um míssil naquele local e explodir aquelas pessoas”, discursou sob aplausos.

O jornal CDD Vive, uma referência em comunicação na Cidade de Deus, condenou a fala de Wilson Witzel. Segundo os coordenadores do jornal, utilizar um míssil como forma de tentativa de acabar com a violência revela a inoperância de décadas de omissão das políticas públicas nas favelas. “Ser marginalizada por esta fala governamental é no mínimo falta de respeito com mais de 72 mil seres humanos”, critica o editorial do jornal.

De acordo com a constituição brasileira, não há pena de morte no país. Para a presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), deputada estadual Renata Souza (Psol), mesmo que houvesse, todos teriam direito a julgamento prévio. “Precisamos lembrá-lo que estamos em um Estado Democrático de Direito e não de barbárie. Segurança pública se faz com estratégia, prevenção e inteligência, não com mísseis e execuções sumárias”, lembrou Souza.

Ao demonstrar o desejo de atirar mísseis em favelas, o governador sacramentou a morte de milhares de pessoas. O Favela em Pauta utilizou uma ferramenta chamada NUKEMAP para simular como seriam os efeitos de mísseis ou armas nucleares em quatro favelas do Rio de Janeiro: Complexo do Alemão e Acari, na zona norte; Rocinha, na zona sul e Cidade de Deus, na zona oeste.

As explosões foram baseadas em quilotons, uma unidade que serve para avaliar o poder de uma bomba nuclear, comparável à energia produzida pela explosão de mil toneladas de T.N.T. (trinitrotolueno). “Testamos” um míssil de 60 quilotons. Quanto mais quilotons, maiores são os estragos.

A Rocinha, favela mais populosa do país, seria devastada. No epicentro da explosão (amarelo), certamente não sobraria ninguém para contar história. Ao tocar no solo, a quantidade de precipitação radioativa é significativamente aumentada dependendo da altura de onde for atirada.

O raio de radiação (área em verde no mapa) atingiria toda a favela do Vidigal e Parque da Cidade, além de São Conrado, Gávea e Leblon. Sem tratamento médico, pode-se afirmar que entre 50% e 90% das pessoas morreriam. Os efeitos da radiação podem durar algumas horas ou se extender por semanas.

Segundo o Sistema de Assentamentos de Baixa Renda (SABREN), cerca de 69.156 pessoas moram na Rocinha; instituições do morro falam em 200 mil habitantes

Em Acari, na zona norte do Rio, os efeitos também se espalhariam para bairros vizinhos. Além dos estragos da explosão e da radiação, o círculo alaranjado significa que as pessoas sofreriam queimaduras de terceiro grau. Em muitos casos, as queimaduras são indolores, porque eles destroem os nervos da dor. Teríamos uma população com severas cicatrizes e possibilidade de amputações de membros.

Frequentemente, a favela de Acari vive sob operações policiais

Na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, os Estados Unidos bombardearam as cidades de Hiroshima e Nagasaki contra o Império do Japão, nos estágios finais guerra. A bomba de Hiroshima, como ficou conhecida na história, carregava 15 quilotons. Se Wilson Witzel decidisse atirar a mesma bomba na Cidade de Deus, na zona oeste da cidade, os estragos seriam monstruosos.

A Cidade de Deus vive cercada pela especulação imobiliária na zona oeste da cidade

Por fim, o Complexo do Alemão não escaparia da lista do governador. E nem precisamos de dizer o grau de estragos na região. A imagem fala por si só.

Complexo do Alemão é um dos maiores conjuntos de favelas do Rio

A declaração do governador revela uma mentalidade autoritária e violenta que expressa claramento um preconceito e total desprezo com a vida de quem mora nas favelas do Rio de Janeiro. Essa simulação do alcance das bombas foi feita para dar dimensão à essa fala e mostrar o quão desproporcional ela é.

Esse discurso militarizado acentua ainda mais os velhos estigmas alimentados na sociedade, que colocam o morador de favela em uma situação marginalizada, “banditizada”. Morar em favela não é escolha, é condição. Enquanto isso o Estado intensifica sua força a cada operação, matando cada vez mais gente, quase sempre inocentes. Tentando relativizar a fala do governador, internautas argumentaram que ele falou sobre a bomba apenas em sentido figurado. A fala pode ter sido, mas os estragos que esse pensamento traz não são.