Por que a planta favela não resiste ao clima carioca

0

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma em pesquisa que 1.393.314 pessoas vivem nas 763 favelas do Rio. Segundo dados do Censo 2010, divulgado em 2011, o Rio de Janeiro é a cidade com a maior população vivendo em aglomerados subnormais do país.

Muitas pessoas ainda não sabem qual termo usar. Favela? Comunidade? Aglomerados subnormais? Para alguns é apenas uma nomenclatura diferente. No entanto, você já viu uma Cnidoscolus quercifolius no Rio de Janeiro? O nome pode causar estranheza, mas é essa planta que deu origem ao termo “favela”, por ocasião da Guerra de Canudos (1896 – 1897).

Onde fica a região de Canudos (BA)

A planta podia ser encontrada sobre uma encosta do arraial de Belo Monte de Canudos, o alto da Favela, localizada em uma vila no semi-árido baiano, muito comum na região.

A favela é um arbusto espinhento que mede entre cerca de 3 metros a 7 metros de altura. Além das flores brancas, a planta também produz frutos que contém sementes oleosas semelhantes às sementes de fava, um tipo de feijão originário do Peru. A madeira da favela é moderadamente pesada e de fácil apodrecimento.

Segundo o pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Marcus Nadruz, não há nenhum exemplar do faveleiro – outro nome dado a favela – no arboreto do Jardim Botânico porque a planta é uma espécie típica da caatinga. “São vegetações de áreas secas, ao contrário do Rio de Janeiro, cuja vegetação é de Floresta Ombrofila Densa e Estacional Semidecidual, ou pouco mais úmida. Provavelmente esse deve ser o motivo pela qual a espécie não se desenvolve no estado”, explica Nadruz.

A Floresta Ombrofila Densa (FOD) é caracterizada pela vegetação de folhas largas e por chuvas abundantes e frequentes. Nesse tipo de floresta praticamente não ocorre período de seca. Nela podemos encontrar árvores altas, além de muitas bromélias, palmeiras e lianas.

Não há registros dessa planta de forma nativa no estado do Rio de Janeiro. Mas é possível encontrar o cultivo como planta ornamental em alguns pontos da cidade, como na escola pública estadual Theophilo de Souza Pinto, no Complexo do Alemão . O botânico Diego Gonzaga explica que as plantas ornamentais são plantas cultivadas para apreciação de sua beleza. “Elas são utilizadas para ornamentar jardins e interiores. Essas plantas foram separadas nesse segmento por várias características, como o seu cultivo e principalmente características de sua beleza, como a floração, os formatos variados de sua folhagem e caule, sua textura, cores, etc.”, diz Gonzaga.

Plantação de favela no Nordeste. (Foto: Laceildo Veloso)

Os riscos e benefícios da planta

Natural nas caatingas do Nordeste, como nos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe e Bahia, a planta também pode ser encontrada em Minas Gerais, principalmente no período de seca. Além das folhas maduras, os brotos e a casca da favela são muito consumidas pelos animais silvestres. A floração acontece anualmente durante os meses de agosto a dezembro e os frutos amadurecem de dezembro a fevereiro.

O ácido cianídrico (HCN) presente em sua composição é uma ameaça a saúde de quem consome está planta. Porém, o morador do Complexo do Alemão, Thainã de Medeiros, analisou metaforicamente a importância da favela como alimento para muitos nordestinos:

Compreendida, a favela é um importante alimento: sua semente triturada e misturada com farinha de mandioca com açúcar alimenta diversos sertanejos em momentos de escassez. Além de servir de proteção contra a invasão do Estado, esta plantinha ainda serve como um forte alimento. O pobre literalmente se alimenta da favela.

Ainda sem estudos aprofundados que comprovem sua eficiência, a favela também é uma planta medicinal usada como único recurso terapêutico disponível em muitas comunidades nordestinas. Ela previne o envelhecimento precoce, diminui chances de Alzheimer e doenças degenerativas, também úlceras e feridas.

Outra utilidade da favela é o látex. Retirado dos galhos e tronco, o líquido frágil pode ser aproveitado para iluminação e como remédio balsâmico. As sementes fornecem óleo alimentício e farinha – rica em sais minerais e em proteínas – usados na engorda das galinhas, porcos e ovinos.