Porque as vidas nas favelas importam

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Jeremias Moraes da Silva morreu aos 13 anos de idade ao ser atingido por um tiro de fuzil durante uma operação policial em fevereiro de 2018, no Complexo da Maré. Ele voltava do futebol. Negro, jovem, cheio de vida pela frente. Estava aprendendo a tocar violão, mas seus sonhos foram interrompidos pelo cano do fuzil. Três meses depois, mais um jovem foi morto no Complexo da Maré: Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos de idade. Ele estava indo uniformizado para a escola quando foi baleado na barriga. Ele chegou a ser socorrido, mas morreu horas mais tarde.

Segundo a ONU, a morte de Marcos Vinícius “é um exemplo do trágico número de 31 homicídios de crianças e adolescentes que acontecem por dia no Brasil. Em 2015, 11.403 meninos e meninas de 10 a 19 anos foram vítimas de homicídio no país – maior número absoluto de homicídios de adolescentes no mundo. Os adolescentes negros estão três vezes mais vulneráveis a mortes violentas em comparação com os brancos na mesma faixa etária”.

Fato é que as favelas historicamente são vistas pela mira do fuzil na tentativa de legitimar as ações policiais contra a guerra às drogas. Sem êxito, as favelas sofrem com o sucateamento dos serviços públicos básicos como saúde, saneamento e educação. “O Estado só se faz presente na forma de repressão, através do aparato policial em nossas favelas e quando fazem algo é sempre próximo de período eleitoral”, conta X*, uma moradora da Vila do Pinheiro, no Complexo da Maré.

Em julho de 2017, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, anunciou que as favelas do Rio de Janeiro iriam receber uma série de ações sócio-educativas para combater o crime organizado na cidade. Com dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, o Favela em Pauta mostrou recentemente como será executado o pacote de propostas e soluções através do Plano Nacional de Segurança no estado. Porém, já estamos na metade de 2018 e até agora a população não viu nenhum sinal de execução do plano emergencial.

A saída mais emergencial encontrada pelo presidente Michel Temer foi decretar – em fevereiro deste ano – uma intervenção federal na Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio até o dia 31 de dezembro de 2018. “O objetivo da intervenção é pôr termo a grave comprometimento da ordem pública no Estado do Rio de Janeiro”, diz um trecho do decreto 9.288. Desde o início da intervenção, mais de 38 policiais e um agente foram mortos. Dados obtidos pelo Observatório da Intervenção, uma iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC/Ucam), mostra que 100 mil agentes já foram utilizados em 203 operações. Além dos agentes mortos, 56 pessoas também perderam suas vidas em operações.

A cada dia vemos crescer o número de aulas canceladas por causa de operações policiais, escolas alvejadas e crianças feridas ou mortas durante essas operações em horário escolar. Somente este ano já foram oito crianças e adolescentes vítimas de projéteis de armas de fogo. Em 2017, desde o início do ano letivo, a violência afetou o funcionamento de 467 escolas, onde 165.804 alunos ficaram, pelo menos um dia, sem condições de irem à escola.

As regiões que mais fecharam: Acari (45 dias de um total de 198); Maré (31 dias); Cidade de Deus e Manguinhos (25); Alemão (24); Favelas do Rola (23); Chapadão (20).

As mortes de jovens não podem ser normalizadas. O direito à vida deve vir em primeiro lugar.

Foto de capa da matéria por fotógrafo Bento Fabio