Uns pela direita, uns pela esquerda: favelados tomando no centro

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Não está sendo fácil compreender a polarização do debate político brasileiro nos últimos anos. Dia desses, um amigo morador de favela disse que foi até a barbearia dar um trato no visual – todos os barbeiros negros, favelados, evangélicos – e os clientes discutiam em quem votar na próxima eleição presidencial. Com um minuto de conversa, ele descobriu que todos eles eram eleitores de Jair Messias Bolsonaro (PSL). A tentativa de apresentar e explicar as propostas de outro candidato, como Boulos (Psol) ou Fernando Haddad (PT) foi em vão. É difícil dialogar com um eleitor de Bolsonaro, pois a maioria se informa por meio do WhatsApp. Um berço de fake news.

Quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a Rocinha em março de 2008, para o lançamento das obras do Programa de Aceleração do Crescimento em favelas do Rio, os moradores estenderam uma faixa agradecendo o presidente pelo pacote de obras. Uma década depois, o conservadorismo avançou pelas favelas. O discurso bolsonarista vem ganhando força através de questões morais. Lula, agora, não é mais a bola da vez. Fernando Haddad, o substituto de Lula, carrega uma enorme responsabilidade. Pois, como ele diz em seu slogan: “Haddad é Lula” e o objetivo é fazer o povo feliz de novo. No entanto, Bolsonaro e Lula tem algo em comum: ambos são populistas.

Se há dez anos atrás Lula era aplaudido pelos investimentos sociais no país, hoje os moradores dizem que ele virou farinha do mesmo saco. “Foi engolido pelo sistema”, é a frase que mais ouço entre os eleitores de Bolsonaro, inclusive, alguns com quem conversei já votaram em Lula/Dilma. Os favelados conservadores enxergam o candidato do PSL como uma pessoa de fora do sistema. A falta de uma autocrítica do Partido dos Trabalhadores (PT) também é lembrada pelos moradores. Faltou humildade em não assumir erros. Mas engana-se quem pensa que a corrupção no país nasceu com o PT. A corrupção no Brasil existe desde o período colonial.

Mas será que a onda conservadora da favela tem origem na insegurança pública do Rio de Janeiro? Ou a população pobre se voltou contra as políticas sociais?

O Bolsa Família é um programa que contribui para o combate à pobreza e à desigualdade no Brasil. Cerca de 538.490 famílias estão inseridas no Cadastro Único no município do Rio de Janeiro. Dessas, 247.037 famílias são beneficiárias pelo Bolsa Família. O valor médio do benefício é de R$ 170,88 por família. Muitas famílias ainda precisam desse benefício. Outras famílias acreditam ser uma esmola que acomoda pobres. Porém, os conservadores não tem clareza sobre como podemos diminuir a desigualdade social sem as políticas sociais.

O ex-capitão do Exército, Bolsonaro, é um saudosista da ditadura militar no Brasil. E como nosso povo tem memória curta, vale lembrar que naquele período os militares fizeram remoções forçadas, além da presença militarizada do Estado no cotidiano dos moradores. Entre 1962 e 1974, mais de 140.000 pessoas foram removidas de suas casas, em especial nos bairros nobres, como a Lagoa e o Leblon, de acordo com o Relatório da Comissão da Verdade do Rio. Em 2018, vivemos uma intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro. O modus operandi continua sendo o mesmo. Mais e mais operações militares nas favelas. Com Haddad ou Bolsonaro, os tiroteios vão continuar porque sistema é foda.

O PT não soube desenvolver sua política de base nas favelas e nem em bairros populares nos anos em que esteve no poder. A incapacidade do governo de lidar com a pobreza e a violência permitiu o crescimento das igrejas evangélicas nesses territórios. Além das ideias religiosas, o evangelismo aproveitou a ausência do governo e passaram a tratar de assuntos sociais com os quais as pessoas lidam todos os dias. O fato de oferecer educação, segurança e desenvolvimento econômico ajudou a fortalecer o pensamento conservador. “Confesso para ti que é difícil de entender, no país do carnaval o povo nem tem o que comer”, cantou MV Bill na música “Só Deus pode me julgar”.

O conservadorismo não é o único fator que alavancou a popularidade de Bolsonaro. As pessoas estão desesperada por um político que traga algo novo. Mas, de novo, Bolsonaro não tem nada. Ele está na vida pública há 20 anos e ninguém sabe o que ele fez pelo estado do Rio.

Nada contra os debates morais, mas nosso país sente fome. Não é possível convivermos com a alta do desemprego, avanço da pobreza, corte de beneficiários do Bolsa Família e o congelamento dos gastos públicos por até 20 anos. Este último, Bolsonaro (na época era do PSC), votou a favor de fazer o Brasil retroceder 20 anos em 2 anos. Agora, ele se apresenta como solução para os brasileiros.

Independente de quem for o próximo presidente do Brasil, nós, os pobres, devemos abrir os olhos e votar criticamente. Que o sentimento anti-petista não nos leve para um cenário fascista, onde os conservadores falam sempre em corrupção, a ameaça à família tradicional e aos valores nacionais, mas reproduzem as mesmas atitudes da velha política. Tenhamos cuidado em quem vamos eleger, se não, continuaremos tomando no centro.